sábado, 14 de novembro de 2009

Visita à escola primária

Por volta de 1959 e antes de fazerem a escola nova a senhora Dona Helena Felgueiras, professora primária de Brunhoso, dava a escola, como nós dizíamos, na casa da paróquia, ao cimo da Rua do Balcão. Ainda existe esta casa, agora remodelada graças à intervenção da Junta de Freguesia e dos Moredos do Brasil, em especial o José Manuel Moredo.
Dava um grande volume contar a saga desta família, originária de Brunhoso e que hoje são um potentado económico no Brasil, principalmente na indústria dos mármores e granitos. Mas isso é outra história e hoje quero falar-vos do tempo em que ali funcionava a escola primária.
Andavam nessa escola os meus irmãos Francisco e João. Como se entrava para a escola aos sete anos, eu teria cinco anos e o meu irmão Zé três. Como não me lembro de o Martinho andar connosco nesse dia, é porque ainda não tinha autonomia para andar tão longe de casa, o que me leva a concluir que teríamos as idades que referi. Quando muito teríamos mais um ano cada. O Martinho teria um ano, apesar de ladino e ter começado a andar muito cedo.
Nas nossas deambulações pelo povo, resolvemos eu e o Zé, que nesse dia iríamos ver o Chico e o João à escola.
Era costume os garotos começarem muito novinhos a fazer algumas coisas da lavoura, como levar as vacas a beber, outras vezes levá-las à regada , ali na Lagariça, outras vezes irmos para Vale de Cabo a ajudar a regar e outras coisas como cavar as batatas ou o milho, andarem pelo povo nas suas brincadeira.
Esse dia, andávamos na jolda pelo povo e surgiu aquela lembrança!
E se bem o pensámos, melhor o fizemos! Aí vamos nós, pela rua do balcão acima até chegar ao cimo, onde começa a rua da Malhada. Ali à direita, aí estaca a casa da escola. Chegámos à porta e abrimos. Era ver os garotos todos da escola a olhar para nós. A professora, a senhora Dona Helena, veio à porta e perguntou-nos o que estávamos ali a fazer. Nada, lhe dissemos. Deu-nos uma desanda que corremos e só parámos em casa. A Dona Helena tinha a fama de ser uma professora muito brava.
E foi esta a primeira visão que tive do mundo dos estudos. Os garotos e as garotas sentados e a professora muito enraivada por lhe termos interrompido a lição. Todos muito caladinhos porque o respeito era muito e as reguadas para quem se portasse mal faziam doer muito as mãos. Já bondava as que levávamos por não saber as contas e a gramática! Aí é que não havia nada a fazer!


FIM

Leça do Balio, 2 de Agosto de 2009
António Magalhães

A Minha Aldeia é O Mundo

A Minha Aldeia é O Mundo


Todos sabemos que, mercê das tecnologias hoje existentes, tudo o que se passa em qualquer parte do mundo é logo conhecido por todos desde que o assunto mereça a atenção das televisões, dos jornais e outros órgãos da imprensa a que chamamos “media” (leia-se mídia).

Por conseguinte hoje vivemos naquilo a que se chama a aldeia global. A interdependência das nações e dos produtos dessas mesmas nações é tal que dificilmente hoje podemos dizer que um determinado produto é deste ou daquele país, já que o inventor é duma nacionalidade, o detentor da patente é doutra, o fabrico pertence a uma empresa que é de outra, sendo a mão de obra por vezes oriunda de diversas partes do mundo.

O caso mais característico desta situação é geralmente apontado como o acidente de viação que tirou a vida à princesa Diana de Inglaterra.

Com efeito a princesa Diana de Inglaterra, mãe dos filhos do príncipe Carlos, herdeiro do trono, teve o seu acidente de viação em França, concretamente em Paris, onde seguia num carro alemão, da marca Mercedes, com o seu namorado árabe e perseguido pelos paparazzi italianos.

O caso que vos vou contar é, dentro de outro contexto, o exemplo da aldeia global resultante dos nossos conterrâneos estarem disseminados por esse mundo fora:

Numa das minhas idas a Trás-os-Montes, foi-me oferecida uma garrafa da Adega Cooperativa de Freixo de Numão, do concelho de Vila Nova de Foz Côa, com um vinho espirituoso próprio para antes das refeições, um óptimo aperitivo com a marca “Escorna Bois”.

Veio pois a dita garrafa para minha casa nos arredores do Porto, tendo ficado arrumada para uma ocasião especial ou para um dia que calhasse. O que é facto é não a bebi, nem sequer a encetei (ou incertei como dizemos na minha terra).
Fui mais tarde visitado por um irmão que tenho no Canadá – o Armando- e ofereci-lhe a tal garrafa de aperitivo “Escorna Bois” para ele beber no Canadá quando lhe aprouvesse.

No final de um ano que não posso precisar, telefonei para uma irmã que tenho no Brasil para lhe desejar as “Boas Festas e Novo Ano Cheio de Prosperidades” e para lhe perguntar pela saúde dela e dos seus, como é hábito fazermos quando já não vemos os nossos familiares há muito tempo.

Depois de me dizer que estava tudo bem, perguntou-me se eu fazia alguma ideia do ela estava a beber e em que companhia! Devo ter-lhe dito naturalmente, que estaria a beber um champanhe ou outra qualquer bebida, talvez uma caipirinha, por ser no Brasil, na companhia do seu marido e dos seus filhos.

Disse-me que estava na companhia dos seus, mas o que estavam a beber era um aperitivo “Escorna Bois” trazido do Canadá pelo nosso irmão que tinha ido fazer a Passagem de Ano com ela ao Brasil, e que, claro, estava também presente.

Ou seja, uma simples garrafa, oferecida com todo o carinho e que em condições normais, teria sido bebida em minha casa, resolveu atravessar o oceano, alojar-se no Canadá e na ocasião propícia levou consigo o meu irmão, atravessou o continente americano, Norte, Centro e Sul para servir de aperitivo numa Passagem de Ano em S. Paulo do Brasil.

Não é fácil descrever os sentimentos que me ocorreram devido a esta sucessiva oferta de uma garrafa. Bem haja quem ma ofereceu e bem haja quem a bebeu!

A nossa Aldeia é de facto o Mundo! Cada qual para seu canto, mas todos ao alcance dos nossos gestos e sempre dentro dos nossos corações.



FIM


Leça do Balio, 9 de Novembro de 2009


António Magalhães

O presunto comido por engano

O presunto comido por engano

Em 1975 eu e o meu irmão José éramos professores em Mogadouro, ele no Ciclo Preparatório e eu no Liceu, a funcionar no espaço do antigo colégio criado pelo Sr. Padre Varizo e que também era nessa altura o seu Director.

Desses tempos guardo as melhores recordações, seja pelo facto do companheirismo e amizade que nutríamos pelos nossos colegas professores, seja pela nossa juventude com a vida à nossa frente ao virar da esquina, seja pelas das grandes esperanças que alimentávamos para o nosso país, recentemente renascido pela revolução dos cravos, ocorrida um ano antes.

Eram outros os tempos e os costumes. Apesar de tão perto de Brunhoso, pelo facto de não termos carro, tínhamos alugado um quarto na casa que um conterrâneo, ali para os lados do hospital.
E a vida corria com toda a normalidade.
Custa-me a relatar este acontecimento por quase todos os seus intervenientes terem falecido e no decorrer do tempo me ter tornado seu amigo. Não creio trair a sua memória nem ter o boçal preconceito de faltar ao respeito só por relatar uma situação que é bastante caricata.

Devíamos estar em Maio, perto do final do ano
Um belo dia o chegar a casa veio a Senhora Alice, nossa hospedeira, dizer-me que estava ali uma lembrança, que pela forma do embrulho devia ser um presunto, deixado pela mãe de um aluno da aldeia de ….
- Antoninho (era assim que a D. Alice me chamava), está aqui uma lembrança para si, deixada pela mãe de um aluno seu, a ver o que pode fazer por ele.

- Como é que a senhora aceitou ficar com isso, D. Alice? A senhora conhece-me, conhece os meus pais, como é que pode sequer pensar que vou passar um aluno que não mereça. Nunca devia ter ficado com isso!

- Não foi por mal, Antoninho, mas a senhora queria tanto que aceitasse. Ela nem o conhece, mas o filho fala-lhe tão bem do senhor, que ela achou por bem recompensá-lo.
- Ora diga-me lá então Dona Alice, quem foi que deixou isto para eu lho levar e a dar-lhe um bom raspanete.
- Olhe foi a senhora …, esposa do Sr. João Gomes (nome fictício).

Isto deu-me que pensar. O filho do Sr. João era efectivamente meu aluno, só que era o melhor aluno da turma, rapaz estudioso, bem comportado e inteligente. Que gesto bonito! Um aluno que não precisava absolutamente nada, estar a lembrar do seu professor!

- Dona Alice, deixe ficar, o filho dessa senhora é o melhor aluno da turma, bem comportado, não precisava de nada disso. Mas se ele se lembrou de mim e quer assim tanto que aceite, olhe Dona Alice, este presunto vais ser comido por mim e pelos meus colegas.



E assim foi, combinei com os colegas professores do Liceu e do Ciclo e por todos comemos o presunto.
Estávamos nestes preparos quando o meu irmão veio a saber quem nos tinha dado o presunto. E então é que foram elas! Mas já nada havia a fazer! Do presunto já só se aproveitavam os ossos!

A razão do rebuliço é que a tal senhora tinha outro filho que era aluno do meu irmão, sendo ele o director dessa turma! Esse outro aluno era fracote nos estudos e parece que tinha o ano comprometido. Está-se mesmo a ver que o presunto não era para mim e nem era por causa do meu aluno! O objectivo era outro!

Não me recorda se o objectivo do presunto foi alcançado, o que sei é que o presunto foi comido por bem, em atenção a um aluno que não precisava nada daquilo.

A prova provada que aquele aluno não precisava de favores é que hoje é um distinto professor, com uma bela carreira académica.

Perdi-me no adro da igreja


Perdi-me no adro da igreja
Em meados da década de cinquenta do século passado havia uma fonte chã de água ao cimo do adro da igreja a que chamávamos funtoz. Esta designação era dada às poças de água de nascente limitadas por pedras de xisto colocadas ao cutelo que sustinham a água. Tanto quanto me lembro esta fonte tinha água durante todo o ano e era utilizada para lavar a roupa e para as galinhas, perus e parrecos beberem.

Esse dia em particular estava a lavar nessa fonte a Tia e por ali serpenteávamos , em brincadeiras da nossa idade, eu com quatro anos e o meu irmão José com dois anos. Deviam ser estas as nossas idades pois o Zé já andava e eu como que tomava conta dele desde que não saíssemos muito da beira da Tia.

Esta situação, lembro-me passou-se quando morávamos na rua do Fundão, ou seja em 1957 ou depois, porque a nossa casa foi construída em 1957, conforme data que tem no frontispício. Durante a sua construção tínhamos vivido na casa do meu avô Francisco, ali à Rua dos Paus, onde mais tarde o meu primo Tomás fez a sua casa.

Contam que eu era muito atinadinho e sossegado e que na casa do meu avô a minha mãe me deixava na sacada com um naco de mão centeio e um penico e vestido com um bibe. O meu irmão João, mais velho três anos, é que não parava, estava sempre na jolda pelo povo fora.
A Tia era a nossa madrinha, irmã da minha mãe e madrinha de quase todos os meus irmãos. Ainda hoje e já velhinha é a Tia! Mesmo o seu filho lhe chamava tia. Como para quase sempre na vida há uma explicação, também aqui há uma razão para lhe chamarmos tia, apesar de termos mais tias. Para as outras tias usávamos a palavra tia seguida do seu nome. Mas para a tia Carmelinda era a Tia. Já ao meu tio António, marido da Tia, sempre lhe chamámos padrinho.

E a razão de ser a Tia é que os meus pais tiveram muitos filhos e quase invariavelmente era padrinhos de baptismo o meu tio António, irmão do meu pai, e a minha tia Carmelinda, irmã da minha mãe. Foram dois irmãos que casaram com duas irmãs.

Como os meus pais eram mais velhos, casaram antes e tiveram também filhos antes dos meus padrinhos. Por conseguinte quando nasceu a Elisa, minha irmã mais velha, os meus padrinhos ainda não eram casados. Quando foi baptizada foram padrinhos da Elisa o tio António e a tia Marquinhas, os dois irmãos mais novos do meu pai. Quando a minha irmã começou a falar chamava naturalmente Padrinho ao seu padrinho, Madrinha à sua madrinha e Tia à sua tia Carmelinda!

E depois da Elisa nasceram a Helena, a Carminda, o Francisco, o João, o António que sou eu, o José, o Martinho e o Armando. Houve ainda outros filhos que não vingaram, tendo morrido pequeninos.
Como a Elisa chamava Tia à tia, todos os outros lhe seguiram o exemplo, apesar de ser ela a madrinha de todos os restantes. Como as casas do meu pai e do meu padrinho eram uma em frente da outra, o filho da Tia aprendeu também a chamar tia à sua própria mãe.

Estava então a tia a lavar na funtoz e na sua roda o Zé e eu na brincadeira, talvez com um pedaço de cortiça a fazer de carro de bois bem carregado de feno.
Quando dei por ela o Zé, com dois anos, já não estava à minha beira e não sabia para onde tinha ido. Estando tão perto do adro da igreja resolvi ir a dar a volta ao adro a ver se o via por “estar à minha guarda”. Convém referir que o adro da igreja fazia um U em sua volta, rodeando-a havendo duas entradas uma de cada lado da igreja. Havia ainda outra entrada que dava para o fundo do povo. A funtoz era do outro lado da rua e pertinho de uma das entradas de cima, no caso perto da perna direita do U.

Entrei então no adro e dei a volta ao adro. Entretanto a Tia deixou de ver os seus dois sobrinhos e foi a casa, a cerca de cem metros. Como o Zé tinha ido para casa, rapidamente o encontraram, mas de mim é que ninguém sabia.

Dado como perdido, foram então outra vez à funtoz, agora já vinha a minha tia uma das minhas irmãs, penso que a Elisa, com o pequeno Zé ao colo. Entretanto vinha eu a subir o adro quando os vi a todos. Como tinha perdido o Zé eu estava a chorar e foi a chorar que me viram quando me encontraram! E o que ficou para a história foi que o António, o Toninho ou o Tóino, se perdeu no adro da igreja e que foi o Zé, com dois anos que foi a saber dele e que o encontrou.


Quando era novito ainda tentei repor a verdade, mas nunca consegui! Quando comecei a ter juízo das coisas achei que a versão da verdade dos outros era bem mais interessante do que a minha e desisti da minha versão.

Porém como a verdade é só uma, aqui fica a verdade verdadeira de eu me ter perdido no adro da igreja.




FIM



Leça do Balio, 31 de Julho de 2009

António Magalhães

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falares de Brunhoso

FALARES DE BRUNHOSO

Pantomina publicada no site de Brunhoso em 07-01-2006, acerca da particularidade do falar da zona de Mogadouro. Tentou-se escrever do modo como falamos.

- Deus nos dê boas tardes, cumpadre !
- Boas tardes nos dê Deus, cumpadre!
- Atão já comiste?
- Atão num haberade. A minha cozeu-me um chabilano cum batatas e cum couves. Atão e tu?
- Olha c’mi umas casulas co bulho e uma selada de merujas p’ra desinfastiar..
- Onte ias a caminho da Lagariça, stava eu a atorar uma lanha ali no Crasto, qué que ias a fazer? Num digas que fuste a botar a a água à regada?
- Nãomassim fui, num tinha nada que fazer e s’habia de andar por aí de bagueiro, lá fui a botar a auga. E amanhã bou a carregar o estrume da corriça da Coba dos Lobos p’ra lo botar olibeiras do Figueiredo.
- Olha tamém eu, amanhã tenho qu’ir à Perdigosa a estrumar as estacas.
- Bamos ó café Chico Barranco a jogar o chincalhão ou uma suecada?
- Nem é tarde nem é cedo. Sempre lá encontramos o Toino do Couço e ó Abilho da Hortelã. A até habia de falar co’eles a ber me querem ir a limpar as olibeiras do Cachão. Temos que le dar as desforra, da outra bez saiu-lhes a porca mal capada, a pinsarem que nos dabam tareia e lá tiberam que encostar a barriga ao balcão. Mas cautela co’eles, ara só macetes e falseiras.
- Olha, bem ali a c’madre !
- Foi a casa do Sr. Júlio, ficou de t’lefonar a tua afilhada.
- Atão comadre, como é que bai?
- Bou bem co’a graça de Deus, T’lefonou a nha Céu, fai anos o meu netinho. Diz a nha Céu que stá munto relamposo e manda besitas p’ra todos.
- Manda-le tamém saudades do padrinho, aquilo é o bosso ai Jasus!
- Atão undé qu’ides a estas horas, compadre maiso meu marido?
- Bamos ali ó café do Chico.
- Num bos demorendes, qu’a noite bem fria. Até amanhã cumpadre, se Deus quiser!
- Bá , bai lá, num demoramos.
- Até amanhã, c’madre.

- Bem, lá bamos. Bõ gabinardo tens. Num há frio que t’entre. Und’é co cumpraste?
- No sóto da Senhora Marquinhas. A minha já me tinha dito que a jaqueta estaba belha e que até parecia mal na missa. Íamos-la a cumprar umas alparagatas ao garoto e a minha biu lá aquilo e trouxe-o. Estaba para esperar p’la feira, para ir à bila a comprar uma samarra ou uma jaqueta, que o frio ainda aí bem, biste o sinceno que habia hoje de manhã?
- Oh, o ribeiro dos Olmos até staba tralhado c’o carambelo. Ó passar esbarou-me um pé qu’até ia caindo.

- Olha, atão qué que le aconteceu ao Chico do Barriguinho, que bem de jagata e a mancar.
- Pois tu num sabes, o pantomineiro do Joaquim dos Lameirões fez-le uma tranquila e olha, estornilhou um pé. Foi preciso lebá-lo ao endireita do Bariz.
- São uns tramplineiros. E tudo por causa duma carunha de azeitona que o Chico, na brincadeira, le atirou. Mas o outro também tinha feito caçoada dele por causa duns bulhacos!
- Um bô lafrau é o qu’ele é.

(No Café do Chico)
- Ora cá bem o saco e ó baraço!
- Ora Chico, já incertaste o pipo? Trai aí dois copos, e ali pró Toino e pr’ó Martinho

(Continuará?)

07-01-2006
António Magalhães

Lembras-te Francisco?

No Paraíso… em Brunhoso


(Ao meu bom amigo Francisco Ribeiro, como um irmão. Subimos juntos ou pelo menos à vista as ladeiras da vida.)


Lembras-te Francisco!

- Lembras-te Francisco, quando éramos tão piquenos e íamos com as vitelas por esse termo fora à procura do fnanco para elas comerem!

- Lembras-te de irmos para a Malhada, para Francos, para a Lagariça! Sempre atrás delas e aguardá-las para não irem a fazer mal aos lameiros, onde se estava a criar a erva para o feno! Lembras-te de só as deixarmos comer a erva das bordas dos trigos da Malhada.

- Lembras-te Francisco quando entrámos à escola, com a saquitinha com a lousa, o giz e os livrinhos. Logo no primeiro dia fiquei de castigo porque no Livro da 1ª Classe tinha as figuras do cão, do gato …, e quando abri o livro comecei logo a imitar as vozes desses animais. Ão, ão … miau… quá-quá! Isto tudo alto e bom som, o que provocou a risada geral da escola da professora Fernanda, da sala dos rapazes. E quando perguntou, que animal é este?, e em coro todos respondemos – É um parreco! E ficámos todos de castigo, porque era um pato, é assim que se devia dizer! E da novidade da retrete, lembras-te Francisco!

- Lembras-te Francisco, quando faleceu o Sr. Padre Zé, que fomos em cruzada até Soutelo ao seu enterro! Lembras-te quando lhe ajudávamos à missa e nos responsos nos dava sempre uns tostõezinhos para arrebuçados! E na catequese com a Teresa Piquena! Lembras-te Francisco?

- Lembras-te da segunda classe com a Dona Carminda, que a meio do, ano nos deixou para ir para a África. Lembras-te Francisco da Dona Adriana, tão brava, que a veio substituir e uma vez nos marcou os deveres da tabuada – Uma vez a tabuada do um, duas vezes a tabuada do 2, três vezes a tabuada do três e sucessivamente…

- Lembras-te Francisco, da régua e da vara da Dona Amélia… E daquela surra que deu ao Joaquim Coleila, por não saber, já não sei o quê! E do Joaquim Pitreca, que também levou tantas vezes, sem falar do falecido António Miguel, do António Pitotas, do Francisco Marcos, do António Garruncha, só para falar dos da nossa idade! Lembras-te do Francequinho Cordeiro, do Emídio, como éramos tão pequeninos e já levávamos pela medida grossa.

- Lembras-te Francisco quando íamos à Serra a esperar a professora! E quando plantámos as árvores no recreio, que algumas ainda hoje lá estão!

- Lembras-te Francisco, quando antes das nove horas, no tempo das castanhas irmos à Serra a dar a volta e apanhar as castanhas que havia no chão. E que quando aparecia a Guarda, todos fugíamos para o povo, apesar de andarmos nos nossos castanheiros e por conseguinte não andarmos a roubar.

- E quando fizemos a quarta classe, que fomos à vila, a cavalo nas bestas. E no intervalo de duas provas, a minha mãe levou-me aos Casimiros e comprou-me um fato para ir bem apresentado.

- E depois fomos a estudar para padre, eu e o Emídio para a Régua e tu para Mogofores. E a pena que teve a D. Amélia por o António Pitotas também não ir a estudar, porque, dizia ela, o rapaz ia longe.

- E lembras-te Francisco nas férias, como ajudávamos os nossos pais nas lides agrícolas – Nas férias do Natal era a azeitona. E quando esta acabava, ainda íamos a botar o estrume às oliveiras, botar a água à regada… Havia o mata-porco, a missa do galo, cantar as janeiras e ala p’ros estudos. Lembras-te Francisco das carruagens do gado a que a CP recorria para fazer o trajecto até ao Pocinho, porque as outras não chegavam!

- No Carnaval vestíamo-nos de Caretos, eu tu e o Emídio, e íamos às casas dos familiares a meter medo! Lembras-te em casa da tia Melânia, sermos quase corridos, por não nos ter conhecido, e que quando tirámos a máscara nos tratou como príncipes!

- Lembras-te Francisco, do Entrudo, com os homens todos pelo povo atrás do boneco de palha, a tisnar tudo com cinza, e dos barulhos que sempre havia por se emborracharem.

- Nas férias da Páscoa, havia que desmamonar a vinha, cavar marradas da lavra das oliveiras, tirar-lhe os bravos do toro…

E assim nos criámos e nos tornámos homens!

(Publicado no Fórum de Brunhoso em 12 de Maio de 2006)


António Magalhães

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Sapateiro de Santiago

1 – Os Pais do Jacinto

Era uma vez um sapateiro de Santiago que vivia do seu ofício de remendão. Era pessoa bem quista, não seria a pessoa mais importante da aldeia e a mais instruída, esse era o marido da senhora professora que, com bens ao luar que bondem, ainda tinha 450 mil réis por mês que lhe advinham do ofício da sua mulher. Boa vida levava também o senhor padre, mas esse tinha sido por escolha divina e porque o seu pai, de pequenino, lhe tinha traçado o destino, enviando-o para o seminário para o serviço de Deus para poder levar uma vida de costas direitas.

O sapateiro, de sua graça, Nicolau, vivia a sua vida na sua casa com dois quartos, uma sala e a cozinha. Era uma casa pequenina, igual a tantas da aldeia em que no piso térreo tinham criado a sala, para as refeições nos dias de festa. Entrava-se directamente para o espaço da cozinha e subindo as escaleiras tinha-se acesso aos dois quartos.
Situava-se a casa mais ou menos a meio da rua do Poço.
O Nicolau era pessoa honrada e faziam um casal normal, ele e a sua esposa, a senhora Clotilde, com quem tinha casado depois dos banhos anunciados. Tudo com deve ser! Viviam do trabalho do dia a dia, tudo sem grandes flores, mas também sem passar fome. A terra, com a sua freguesia, dava trabalho para viver. Já estavam casados há cinco anos, viviam em harmonia conjugal. Mas nada de rebentos, que são a felicidade e a principal missão dos casais.
Os ditos do povo começaram:
- Que maldição ou que bruxedo ali haverá, que a Clotilde continua sem emprenhar! Será defeito dele ou dela?
Ah! As vozes do povo, essas é que não havia modos de as fazerem calar!

Resolveram então ir à aldeia vizinha, onde havia um endireita, que também benzia coxos e sabia rezas e tinha remédios para todas as maleitas de que um mortal pode sofrer!

O ti Zé Manuel ouviu-os, perguntou à mulher pelas suas regras mensais e menstruais, pelas respostas dela parece que por ali não havia problemas, tudo corria conforme a natureza.
Pediu-lhe para sair, para poder perguntar ao homem, sem os imporéns do recato feminino, se a sua natureza também era a prevista para a função, se botava leites que chegassem e se lhe apetecia muito ou não, e quantas vezes, mais ou menos, faziam o coito carnal. O Nicolau começou por afiançar que era muito homem, que não lhe admitia aquelas perguntas, mas lá acabou por dizer, que nem tudo funcionava a contento.


Mandou entrar outra vez a mulher, receitou-lhes uma mezinha e ensinou-lhes uma oração para rezar ao Santo Apolinário, que deviam rezar todas as noites. O tratamento iria começar por alturas do S. João, que era quando as ervas previstas para o tratamento estavam maduras para se fazer o tal caldo da mezinha. O tratamento começaria a seguir ao S. João e dez dias depois de terem desaparecido as regras da mulher. Entretanto teriam de colher as ervas receitadas para fazer o preparado. Nos quinze dias seguintes, dia sim, dia não, duas horas depois de cear, teriam de tomar a mezinha, rezar a oração e praticar o acto carnal, antes de dormir.

E a coisa correu bem! No mês seguinte a Clotilde já não teve sangue, tudo sinais que o ti Zé Manuel sabia da poda! Estava assegurada a descendência e os ditos do povo calados. Combinou o casal o nome do garoto, Jacinto se fosse rapaz e Jacinta se fosse menina. Uma singela homenagem às ervas que os tinham tornado felizes!



2 – Nasce o Jacinto

Em Abril do ano seguinte, quis o destino que nascesse um menino, mas tão enfezado, que o Nicolau não augurou nada de bom para o seu rebento. Umas cores tão amarelas, uns braços e umas pernas tão raquíticas e um chorar tão fraquinho! O garoto não vinga, foi o que pensou. E se vingar, nunca há-de ter forças para seguir a minha arte de sapateiro!

Chegou a pensar se não seria o resultado de ter forçado a natureza. Se Deus não lhe tinha dado as condições para ser pai, não seria sacrilégio tê-lo conseguido, como que à força? Na Semana Santa, quando foi à desobriga, o senhor padre tinha-lhe dado os parabéns, por a sua mulher estar grávida e estar para qualquer dia o nascimento da criança. Na confissão, disse os pecados correntes que todos os cristãos têm, mas nem lhe passou pela cabeça relatar o ocorrido para conseguir engravidar a mulher. Parecia-lhe agora que esse assunto devia ser acrescentado ao rol dos seus pecados.

Passados quinze dias ainda vivia o Jacinto e antes que se finasse, foi baptizado. Foram padrinhos a senhora professora e o marido. Acabada a função, regressaram à sua vida normal o Nicolau e a Clotilde. O menino, sempre enfezado, pouca saúde, mas nada de doenças. Também não dava muito trabalho, comia pouco e quase nunca chorava.

E a vida ia rodando. O Jacinto foi crescendo, nunca saía de casa a não ser para fazer algum recado da mãe, que também não lhe dava muitos por o seu menino ser tão fraquinho. As maiores caminhadas eram ao domingo quando ia com a mãe à missa. Ao seu aspecto raquítico associava-se um feitio macambúzio, ensimesmado e que parecia que não percebia bem o que se lhe dizia. Era contudo um rapaz bem mandado e educado.

Quando fez sete anos e na altura própria entrou à escola. Era o mais pequeno da classe, mas apesar disso, os colegas não se metiam com ele, porque falava pouco, não se metia com ninguém e porque tinham pena dele. Também não andava muito porque a escola era pertinho da sua casa. Acabada a escola, ia para casa.
Agora que já andava à escola, na missa ia para a frente, para o lugar dos homens, não que fosse do seu gosto, mas era assim que pertencia. Afora o caminho da escola, quase se pode dizer que só andou sozinho a distância que vai do lugar das mulheres, ao fundo da igreja, ao lugar dos homens onde estava o seu pai.

Apesar da sua fraca saúde, nunca teve maleitas por aí além, e na escola aprendia bem, fazia os deveres, não mostrava grande entusiasmo e continuava a só falar o que fosse necessário.

Fez a escola primária e aos onze anos começou a ir com o pai para a oficina que tinham numa casa que a sua mãe tinha herdado. E assim entrou o Jacinto, aos onze anos, no mundo do trabalho. Desde cedo o seu pai viu que o garoto tinha jeito para o ofício. Como continuava avesso a brincadeiras e caminhadas, o seu pai evitava mandar fazer-lhe recados. Preferia ser ele a levar as botas ao senhor padre, ao marido da senhora professora e ao regedor, que eram os únicos que tinham este serviço ao domicílio, pela sua posição social na aldeia. Os outros iam eles próprios ao seu estaminé.










3 – Jacinto, o homem da casa

E o tempo continua a correr. Na sua rotina diária, o Jacinto nem deu por nada, mas já tinha 20 anos. Apesar da idade continuava raquítico, sem interesse pela vida da aldeia, não convivia com os rapazes da sua idade, não se lhe conheceram quaisquer devaneios amorosos. Um dez réis de gente!
Foi às sortes e ficou livre da tropa, como seria de esperar.

E continuou na oficina e no ofício que aprendera. Quis o destino que o seu pai falecesse nessa altura por causa de umas maleitas que o ti Zé Manuel não conseguiu curar.
Também isso não mudou nada a sua vida porque agora já dominava o ofício e a freguesia estava satisfeita com ele, porque não era careiro nos remendos e meias solas e fazia bem as botas novas.
O seu melhor freguês era o pai da Rosa, com os seus quatro filhos, todos a trabalhar na lavoura, sempre com os sapatos a precisarem de concertos. Por essa razão a Rosa era a freguesa que mais visitava o Jacinto, já que a ela estava distribuída essa tarefa para os moços não perderem qualquer jeira.
Tendo adoecido a sua mãe, passou a ser a Rosa visita mais assídua ainda, pois o Jacinto combinou com o pai dela que a Rosa iria fazer a comida para o Jacinto e sua mãe.
Como também à Rosa nunca se tinham conhecido namoros, pensou o Jacinto que seria bom casar com ela. E meu dito, meu feito, o rapaz encheu-se de coragem e foi pedir ao senhor Joaquim se podia falar à filha. O Joaquim torceu a orelha, não disse que não, mas primeiro queria falar com a mulher.

Em conversa com a mulher, apesar do rapaz parecer que não tinha valia para nada, um imporém que não podia com uma tosse, sempre tinha um ofício em que não precisava de andar pelo termo a esgadanhar a vida. Se a Rosa estivesse pelos ajustes, não era ele que ia dizer não. Ouvida a Rosa, esta disse logo que sim, se já passava tanto tempo em casa do Jacinto, se ele tinha sido sempre tão bom para ela …
- Pois se ele me falar, digo logo que sim, disse a Rosa.

Foi o tio Joaquim falar com o Jacinto e dizer-lhe que não admitia brincadeiras, mas se as suas intenções eram sérias, então tinha a sua bênção. Escusado será dizer que o Jacinto jurou que as suas intenções eram sérias. Não manifestou qualquer entusiasmo pelo caminho que o assunto estava a seguir. Para ele, que nunca brincou, o casamento era o modo de resolver as suas necessidades e quem sabe, também ele ganhar algum gosto pela vida. As suas conversas com a Rosa limitavam-se ao bom dia, boa tarde. Ela ia para casa da sua mãe, que agora já estava entrevada, ele saía para a oficina. À noite ele ia para casa, ela ia para casa do seu pai. Os dois estavam agradecidos um ao outro, ele porque a Rosa lhe tratava da mãe, ela porque deste modo não ia trabalhar para o campo.







4 – O Lar do Jacinto

E o Jacinto e a Rosa casaram. Nada de muita gente, só a família e os padrinhos. No paga-vinho, a juventude ainda tentou alegrar o Jacinto, mas sem êxito, o Jacinto invocou uma dor de cabeça e os rapazes lá continuaram enquanto durou o vinho, mas como o noivo não parecia estar bem e era de poucas falas, lá lhe desampararam a loja.

Não mudou muito a vida do Jacinto com o casamento. A Rosa continuou a tratar da sua mãe, que cada vez precisava de mais atenção e cuidados. A única alteração foi que a Rosa passou a dormir com ele, quando se libertava das suas funções de enfermeira. Depois de jantar na cozinha, ia para a sala o Jacinto, onde se sentava à espera que se fizessem horas de deitar. Não ganhou por isso o hábito salutar de conversar com a esposa dos assuntos do dia a dia. Como a casa só tinha dois quartos e já que eram casados, nada mais natural do que dormirem juntos. Mas se compartilhava o espaço, não comungava os seus pensamentos com a Rosa. Tornaram-se num casal em que a visão prática da Rosa e sentimentos de solidão do Jacinto se completavam. Para o resto da aldeia era um casal harmonioso, nunca ninguém teve nada que lhes apontasse.

Ainda não tinha feito um ano que estavam casados e faleceu a mãe do Jacinto. Por essa altura já a Rosa tinha engravidado, e passado algum tempo nasceu um belo menino que se tornou um belo rapaz corado e sadio. Continuou o Jacinto solitário pois agora a Rosa só tinha tempo para o pimpolho, de resto o Jacinto o que queria era que nada lhe dissessem e nada lhe pedissem. Mas vivia feliz a Rosa. O marido era verdade que não falava muito, mas também não lhe dava muita canseira. Passados dois anos nasceu outro menino, boas cores e igualmente sadio.

E a vida continuou, sempre igual, o Jacinto na sua loja de sapateiro que estava como o pai lha tinha deixado, os fregueses satisfeitos com os seus serviços.
Os miúdos habituaram-se a não falar com o pai, pois este também nada lhes dizia, como não dizia nada a ninguém. À noite sentava-se na sala melancólico e pensativo, sem nada dizer à Rosa, sem nada dizer aos filhos, que de resto só atrapalhavam os seus pensamentos sorumbáticos. Não batia bem da cabeça, o Jacinto. Ele na sala sentado, enquanto a Rosa arrumava a cozinha, com os miúdos sempre com ela, a fazer uma algazarra infernal para os seus fracos e sensíveis ouvidos. Parecia que a cabeça lhe rebentava com o barulho dos garotos.

E passaram mais dez anos, os filhos andavam na escola, quem sabe se qualquer dia não se tornariam seus aprendizes para continuar a tradição da família.
Esta situação deu que pensar ao Jacinto. Ele que nunca tinha saído da aldeia a não ser para ir às sortes, estava a criar para os filhos a mesma vida, que ele cada vez compreendia menos. Achava normal que ninguém conversasse com ele, nem os filhos, nem a mulher, nem os vizinhos. Ele também não sentia vontade nem tinha necessidade de conversar com eles. Ao longo da sua vida tinha construído uma cerca onde não consentia que ninguém entrasse. E pelos vistos funcionava.


5 – O Jacinto vai correr Mundo

Corria o mês de Maio, os dias já iam quentes, estava o Jacinto uma dessas noites de solitário matutar quando resolveu mudar de vida. Ir por esse mundo fora, conhecer outros povos e outras gentes.
Preparou uma merenda sem a Rosa se aperceber e resolveu que às seis da manhã do dia seguinte iria embora da sua terra e da sua actual vida. Para que a Rosa não o procurasse, quando à noite não aparecesse vindo do seu ofício, deixou-lhe um escrito lapidar: “Rosa, minha querida esposa, resolvi ir correr mundo, não me esperes nunca mais, trata dos nossos filhos, com as economias que te deixo, podes ter boa vida”.

Às seis da manhã do dia seguinte e sem acordar a Rosa, foi o Jacinto embora da sua vida para conhecer o mundo. Ia radiante como nunca se tinha sentido na sua vida!
Passou pela padaria, onde o padeiro, o senhor Soares, um homenzarrão de grandes bigodes russos e careca lhe deu os bons dias. Engraçado, pensou, há trinta anos que comia o pão que este homem fazia e nunca tinha reparado nas suas feições. Respondeu-lhe efusivamente, parecia que já tinha outro espírito, um poder de comunicação que nunca tinha sentido. Continuou o seu caminho sem ver mais ninguém.
À saída, reparou na placa na estrada que dizia: “Santiago deseja-lhe boa viagem”.
Que estranho, como tudo parecia diferente, primeiro até o padeiro o cumprimentara, agora até a placa lhe desejava boa viagem! Parecia que o seu estado de espírito alegre e comunicativo de hoje tinha contagiado os outros!
E o bom do Jacinto continuou a sua caminhada, observando tudo em seu redor. Eram os passarinhos que chilreavam à sua volta, era o alegre colorido dos campos, os tapetes brancos das flores de malmequer nos lameiros, das flores de papoila nos campos de adil, aos tapetes das searas ainda verdes e ondulantes.
Chegado ao cruzamento que dava para a vila, resolveu seguir o outro caminho. A vila já ele conhecia, era lá que às vezes ia comprar as coisas da sua arte, isto quando o senhor Manuel do soto, se esquecia de lhos trazer.

Mais adiante avistou uma manada de vacas a pastar no lameiro. Parou embevecido a fitar um vitelinho que parou a sua correria e se aproximou da estrada que por sua vez também o fitava a ele.
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Parecia que a natureza estava com ares de bem disposta. E o Jacinto caminhou, caminhou…
Com tanta fartura de emoções e de quilómetros já começava a sentir-se cansado. Por outro lado, também o dia estava a aquecer e o sol já estava bem alto.
Resolveu o Jacinto descansar um pouco. Sentou-se à beira da estrada, à sombra de um freixo ramalhudo, puxou da sua merenda e do seu canivete de cabo de pau e comeu uma fatia de pão com linguiça que tirou do farnel. Continuou depois a observar a natureza em redor e sentiu sono. Se dormir um bocadinho, vou retemperar as forças, pensou. Mas quando acordar, como é que sei para que lado é que eu vou? Era uma vergonha enganar-me no caminho e voltar a aparecer na aldeia. Mas como é que vou resolver o assunto? Já sei, tiro os sapatos, ponho-os na berma da estrada, apontados para o sentido da minha viagem! E assim fez, e tranquilo e feliz dormiu uma bela soneca.

Neste entretempo passou por ali o carteiro montado no seu macho que, ao ver o vulto deitado a dormir, logo reparou que era o sapateiro de Santiago.
- Que estranho! O Jacinto aqui?
Desceu do macho, aproximou-se e viu que o homem dormia. Pegou nos sapatos, observou que estavam suados e resolveu voltar a colocá-los direitinhos como os encontrara. Contudo, deixou-os viradas para o outro lado.

Quando acordou, viu os sapatos e lembrou-se que teria de seguir a direcção por eles indicado. Calçou os sapatos e continuou a sua aventura.

Mais à frente viu uma manadas de vacas, em tudo igual à que vira antes de dormir. Até o vitelinho cabriolava, só que desta vez não veio vê-lo de mais perto.
Na continuação chegou a uma encruzilhada que lhe pareceu conhecida, e agora para que lado vou? - Interrogou-se, e resolveu ir pela estrada que lhe pareceu menos importante.
E continuou a caminhar…
E a natureza continuou a brindá-lo com os tapetes floridos Eram os passarinhos que chilreavam à sua volta, era o alegre colorido dos campos, os tapetes brancos das flores de malmequer nos lameiros, das flores de papoila nos campos de adil, aos tapetes das searas ainda verdes.
Resolveu o Jacinto descansar outro bocado. Procurou uma sombra à beira do ribeiro de água limpas, sentou-se e comeu mais uma fatia de pão.
Como o sol já declinava, resolveu continuar a jornada. Avistou uma aldeia ao longe e para lá continuou. Ao aproximar-se pareceu-lhe conhecida e à medida que se aproximava mais igual à sua se tornava! Até a igreja tinha um campanário igual. E lá estava a placa na estrada que dizia: “ Santiago Seja Benvindo”.




6 – O Novo Jacinto

Já sei, disse para consigo o Jacinto! Todas as aldeias se chamam Santiago e são iguais, por isso as manadas que viu não eram parecidas, eram iguais. Ou seja todas as aldeias são iguais, têm o mesmo nome e têm as mesmas coisas.
Não seria de estranhar que mais à frente houvesse uma padaria. E de facto lá estava o padeiro. Cumprimentaram-se e o senhor Soares disse-lhe:
- Cá para o Soares, por hoje bonda, já varri o forno e cá vou para o descanso, que amanha há que levantar cedo!



E o Jacinto ficou a saber que até as pessoas eram iguais e tinham o mesmo nome!
E com estas certezas, mas só por curiosidade, resolveu ir conhecer os habitantes da casa mais ou menos a meio que devia haver na Rua do Poço. Sim porque pelo que já tinha visto, devia haver também uma Rua do Poço. Pois se as aldeias eram iguais!
Eis pois que chegou à Rua do Poço e, mais ou menos a meio, lá estava uma casa igual à sua, com a porta exactamente igual à sua. Bateu à porta para conhecer as pessoas que viviam numa casa exactamente igual à sua.

Bateu pois à porta e de dentro veio uma voz de mulher que lhe respondeu: “ Entre quem é.”
Ficou o Jacinto aparvalhado, então não era que a voz que o mandou entrar era exactamente igual à da sua mulher. Mulher essa que resolvera deixar para sempre! Tinha sido esta manhã às seis horas da manhã, há tão pouco tempo, mas pelo que já vivera nesse dia, parecia-lhe que já tinha sido há muito tempo.
Rodou a maçaneta da porta e entrou. Viu então que na Rua do Poço, mais ou menos a meio, para além de haver uma casa exactamente igual à sua, vivia uma mulher exactamente igual à sua, até na voz e nos costumes, que o mandara entrar e só depois quisera saber quem era. Por sua vez a casa que vislumbrava da entrada era também exactamente igual à sua.

A Rosa que lera o escrito que o Jacinto lhe deixara, levou muito a sério o que ele dizia, se o Jacinto dizia que tinha ido embora era para levar a sério. Estranhou por isso vê-lo agora, ao fim do dia de volta. Aguardou que ele se explicasse. Que ele era diferente de todas as outras criaturas de Deus, já ela sabia e há muito tempo.

- Boa tarde minha senhora, venho aqui a sua casa só por curiosidade porque descobri que todas as terras são iguais, têm o mesmo nome e até as pessoas que nelas habitam são também iguais. Não quero incomodar, mas gostava de conhecer a sua casa, o seu marido e os seus filhos, e prometo que logo depois me vou embora. É que também eu, noutro povo exactamente igual a este, com o mesmo nome, numa rua igual a esta, mais ou menos a meio, também eu, dizia, morava numa casa exactamente igual a esta. Vivia com a minha mulher e o meu filho. E ainda lhe digo mais uma coisa: “ a minha mulher era uma senhora exactamente igual a si, com a mesma voz e tudo. Mas se vê que incomodo, peço desculpa e vou-me já embora.”

Enquanto o Jacinto falava foi a Rosa tecendo que volta havia de dar a esta situação. O que não havia dúvida é que o seu marido estava maluco. Tinha que dar o seu melhor para lidar com ele. Achou por bem não o contradizer, mostrando-se contudo amável e carinhosa.

Disse-lhe então a Rosa, numa voz simpática:
- Meu senhor esteja à sua vontade, pode ver a casa à sua vontade. Eu fico aqui na cozinha que tenho as panelas ao lume. Mas esteja à vontade, faça de conta que a casa é sua. Eu sou a Rosa, chame-me se precisar de alguma coisa!
Como se eu não soubesse já o seu nome, se tudo era igual porque havia de ser diferente o nome da dona daquela casa – pensou para si o Jacinto
- Eu sou o Jacinto, respondeu. E o seu marido não está? Perguntou.
- Não, o meu marido não está, respondeu a Rosa, era um homem igualzinho ao senhor, acrescentou.
- Veja lá minha senhora, não quero incomodar!
- Esteja à sua vontade, disse ainda a Rosa.

Fez o Jacinto uma inspecção cuidada à casa exactamente igual à sua, e nisto demorou, bem à vontade meia hora.

Entretanto tinham chegado o filhos, a quem a Rosa contou que o pai deles não estava bem da cabeça, que lhes pedia por isso, o máximo de compreensão, que conversassem com ele, mas que não demonstrassem que o conheciam, nem lhe chamassem pai, e sobretudo que não fizessem barulho nas suas brincadeiras.

Voltou o Jacinto à cozinha, que é mesmo que dizer à entrada, pois esta era um espaço amplo que englobava a zona de entrada na habitação:

A Rosa apresentou-lhe os filhos, o João e o António, muito educados, cumprimentaram-no e beijaram-lhe até a mão.

Como são iguais aos meus, até nos nomes - pensou o Jacinto – mas muito mais educados, tirando isso são mesmo iguais aos meus. E a senhora, exactamente igual à minha, mas muito mais simpática e conversadora. E a educação que deu aos cachopos? Não há dúvida é uma mulher que sabe o que faz. Apesar de ser uma mulher igual à minha ela é muito melhor! E os filhos, como são atenciosos, exactamente iguais aos meus, mas muito melhores!

Continuaram ainda falar durante um bom bocado, o Jacinto queria saber tudo acerca daquela família, exactamente igual à sua, mas muito melhor! Ficou a saber que o dono daquela casa não estava, mas também se chamava Jacinto e que também era o sapateiro da aldeia.

Os rapazes, como tinham deveres da escola, começaram a fazê-los. O Jacinto, solícito e atencioso ajudou-os na tarefa.
O mais velho, o João, estava a fazer uma redacção e o Jacinto observou alguns erros, principalmente a troca do x pelo ch. Ensinou-lhe uma receita que nunca falha: Olha João, disse-lhe, quando pronunciares a palavra vê se dizes tch ou x, se for tch escreves com ch, se disseres x escreves com x, por exemplo tchave – escreves chave, e teixugo, tu falas teixugo, então escreves teixugo.
Já o António estava a fazer umas contas e não havia modo de acertar com a tabuada do nove. O Jacinto, como um pai, ensinou-lhe também um modo simples de fixar esta tabuada. Só tens que fixar o número que queres multiplicar por nove e o resultado começa pelo número logo a seguir e mais baixo, Se for o sete, o resultado começa por seis, se for o três começa por dois. Depois só tens que ver o número que somado a esse dá nove. Se for 9x7 há-de ser igual a 63, vês, começa por seis e seis e três são nove! Se for 9x3 será 27, começa por 2 e 2 e 7 são nove!

A Rosa olhava embevecida. Como o seu Jacinto não parecia o mesmo, um verdadeiro pai como nunca o tinha sido.

Satisfeita a curiosidade, o Jacinto pensou que seriam horas de deixar aquele lar, para seguir a sua viagem.
A Rosa por sua vez disse-lhe que não podia ir já embora, que era uma desconsideração, que tinha o jantar feito e que tinha posto mais uma batata na panela, teria que cear com eles. Como o Jacinto se estava a sentir no Paraíso, não foi preciso muito para aceitar a amável oferta.

Até a comida que fazia a esta mulher era tão igual à que fazia a sua Rosa!

Acabada a refeição, o Jacinto começou a despedir-se de todos, que os levava no coração, mas que tinha que seguir viagem.

- Nem pense, disse-lhe a Rosa, com esta noite que aí vem, sabe-se lá o que lhe pode acontecer, o senhor dorme cá e amanhã logo vemos.
Que não, dizia o Jacinto.
Que sim, dizia a Rosa.

E ficou!




7 - O Novo Lar do Novo Jacinto



Só há uma coisa, senhor Jacinto, como sabe a casa só tem dois quartos, como num dormem os meninos, o senhor tem que dormir no meu quarto!
- Era o que faltava, senhora Rosa, eu durmo aqui na sala, não quero incomodar!

Mas novamente a Rosa venceu, e o Jacinto ficou e dormiu no quarto da Rosa naquela noite e nas muitas noites que se lhe seguiram.
- E já que o seu ofício também é sapateiro, bem podia aviar umas encomendas que o seu marido tinha, disse-lhe a Rosa alguns dias depois.
- E porque não, retorquiu-lhe o Jacinto.

Vivia o Jacinto naquela casa e ninguém tinha notado a mudança que ali se dera, pois a tal mudança só existia na cabeça dele!
Tinham os habitantes de Santiago notado que o Jacinto não parecia o mesmo, conversador e atencioso para todos, nem parecia o Jacinto tímido, desinteressado e de poucas falas que tinha sido desde pequenino.

Passados alguns anos viera a sua casa o Presidente da Câmara a convidá-lo para presidente da Junta de Freguesia.
Ao vê-lo, o Presidente que o não conhecia, pensou para os seus botões: “Mas este meia leca, pequenino e delgado, não pode com uma lambada, como é que o vou meter nestes assados. Mas como parece ser a vontade da aldeia”

- É o senhor o senhor Jacinto?
- Sim, meu senhor, a que devo a sua honra?
- Senhor Jacinto, eu sou o Presidente da Câmara e vinha convidá-lo para ser o Presidente da Junta da sua terra.
- Senhor Presidente, por motivos que não posso dizer a Vossa Senhoria e a ninguém, eu nunca poderei ser o Presidente da Junta de Santiago. Sinto-me muito honrado e creia que desempenharia o cargo com toda a devoção, mas ficava-lhe agradecido se esta conversa acabasse aqui.

Não insistiu o Senhor Presidente da Câmara. “que motivos terá este meia-leca para desprezar esta benesse!” Deu as boas tardes e foi embora.

A razão sabemo-la nós, o Jacinto ainda pensava que tinha usurpado o lugar numa família que não era a sua. Uma família exactamente igual à sua, mas muito melhor, com uma mulher exactamente igual à sua, mas muito melhor, com uns filhos exactamente iguais aos seus, mas muito melhores, mais educados, mais conversadores e mais seus amigos. Até os habitantes desta aldeia eram mais simpáticos e conversadores do que aqueles que há muitos anos deixara para trás.

A única preocupação que tinha era continuar a pensar que o antigo dono daquela casa podia voltar e nessa altura, ele o usurpador, teria que deixar para trás toda a felicidade que aqui encontrara. Não podia por isso aceitar o cargo que o senhor Presidente da Câmara lhe propusera.

E viveu feliz o Jacinto. Morreu também feliz porque, pensava ele, a não ser a Rosa e os seus filhos, ninguém da aldeia suspeitou que ele não era o Jacinto, marido da Rosa, uma mulher igualzinha à sua, mas muito melhor!





FIM


Leça do Balio, 10 de Junho de 2009


António Magalhães